Qual seria sua impressão ao ver um homem ser engolido vivo por um crocodilo? Medo, indignação, desespero, compaixão? E quando um autor consegue imprimir neste tipo de acontecimento uma veia cômica, patético-cômica, mais precisamente? Um conto que, sem dúvida, deixa a marca do confronto com as misérias humanas. Publicado parcialmente em 1864, na segunda edição da revista Epokha, “O crocodilo” já prenuncia os feitos narrativos do Dostoiévski da maturidade, o produtor de obras como “Crime e Castigo”, “Os irmãos Karamazov”, ” O idiota”, entre outras.

Dostoevski


Desenvolvido numa veia fantástica, o animal crocodilo é um espécie de invólucro, vazio por dentro, lugar que possibilita ao Ivan sobreviver apesar de ter sido engolido. E, como tudo em literatura de qualidade, o conto possibilita-nos uma série de leituras. Na maioria das resenhas, ancorados na frase “o princípio econômico em primeiro lugar”, afirma-se que Dostóievski produziu uma crítica ferrenha ao capitalismo já em voga na Europa Ocidental, o ser humano, mesmo que em condições deploráveis, engolido pelo sistema, passa a defender seu algoz, e compreendê-lo como único caminho. Para ilustrar isso, o conto surpreende o leitor quando o próprio Ivan, que passa a conversar com os demais personagens dentro do animal, entende ser impossível abrir a barriga do crocodilo sem que se estipule uma indenização ao dono. O humano, nesta equação, é o que menos importa.
Além desta noção, o crocodilo também figura como uma espécie de capa mágica, o exterior que cumpre o papel de criar uma singularidade, e disfarçar um interior que é medíocre. Explico-me. Ivan, antes de ser engolido, era apenas um simples funcionário público, alguém que inflado de sonhos de grandeza, não via como realizá-los. Isso vai ficando claro quando, em conversa com o narrador-personagem Siemión, após o incidente, Ivan vai construindo todo um mundo fantasioso, no qual ele se transformaria em grande pensador e orador, proferindo palestras para a sociedade russa no salão de sua casa. Todos, segundo Ivan, viriam escutar o homem que falaria de dentro da barriga do crocodilo, já que o animal deveria ser transportado com a tina para todos os lugares. No ápice do delírio, Ivan chega a se comparar a Sócrates.

O crocodilo

O patético-cômico, por sua vez, fica, por exemplo, por conta do alemão e sua mãe, donos do crocodilo, que falam um russo enviesado, misturado com palavras em alemão, e nomeiam o crocodilo de “Carlinhos”. A única preocupação dos estrangeiros é ver Carlinhos doente, porque engoliu um homem inteiro, fato que poderia ocasionar a morte e posterior perda da fonte de renda (o crocodilo é exibido numa tina para quem pagar um ingresso). Dostóievski usa do patético-cômico em outras obras como “Crime e Castigo”, nas exéquias de Marmieládov, por exemplo.

Dono de uma poderosa narrativa, seus personagens são mundos construídos por ideias filosóficas, políticas, sociais e históricas. Sem deixar de manejar as tintas de uma pena finíssima nas reflexões sobre a dimensão humana, o russo problematiza as velhas opiniões e apresenta novas.