Dia desses estava ministrando um curso de extensão sobre Bernini. A intenção era relacionar suas esculturas com poemas, num certo momento. Pois bem, introduzi o conteúdo, falei das esculturas, do Barroco, e cheguei lá naquele ponto que me interessa muito: as curvas sensuais do seu traço poético. E claro que conversamos sobre sua obra prima: “O êxtase de Santa Teresa”. Não sei em que ponto exatamente achei o livro de Leo Spitzer com poemas de Donne, Juana Inês de La Cruz e trechos de Wagner. Refleti sobre o êxtase, as formas de redenção do tédio, de chegar num espaço misto, de transcendência mesmo, salvação pela linguagem da arte. Li os belos versos da monja Juana Inês de La Cruz e algo ressou com a Teresa D´Ávila, até aí nada demais. Logo depois veio uma lembrança do passado quando era estudante da graduação em Letras: Mariana Alcoforado.

cartas mariana

Pensei que seria interessante começar o segundo semestre das reuniões do Clube de Leitura Rosas no Asfalto com as cartas de Alcoforado. A leitura é viciante, mas pungente, cheia de um sofrimento explosivo. Fiquei pensando em Mariana hoje, mandando uma mensagem de celular de manhã: “Você é um merda” e, logo mais à tarde: “Pensando bem gosto de merda”. Rsrsrsrsrsrs Uma das nossas falou assim: “Mas Mariana sou eu”. Naquele “eu” veio todo o espírito de alguém que ficou confuso por um sentimento tão violento, uma pulsão que precisava ser extravasada, dividida com o outro. Só que o outro não existe. “O amor é participação”, Paz disse algo assim, o que fazer quando ele não tem uma tábua, uma ponte para atravessar?

IMG_7111

Parece que as coisas ficam mais intensas quando se é mais jovem, depois a gente vai ficando cínico, vai perdendo a capacidade de sentir. Alcoforado, se existiu ou não, deixou um testemunho para lembrar a gente que vivemos de sangue, de veias violentas emoções.

IMG_7112

IMG_7110

IMG_7114