Tenho comprovado o que sempre defendi: o hábito da leitura se constrói através do tempo. Digo sempre aos meus alunos que não há fórmula para que se possa compreender um texto, há apenas caminhos e estes precisam ser percorridos todos os dias. Desde pequena já ocupava meu tempo com bons livros e sempre que podia, sacava um da bolsa e lia em qualquer lugar, a leitura para mim é necessidade. Não gosto de ficar sozinha, então, os livros sempre foram a minha companhia constante. Eu tenho assistido a floração da prática da leitura prazerosa e, mais ainda, de uma percepção mais aguçada do “dentro do dentro” do texto, desde que começamos nossas reuniões no Clube de Leitura Rosas no Asfalto, e isso para uma professora de literatura é alegria pura.

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Em nosso último encontro, isso foi sentido muito fortemente. O texto favoreceu, lemos “O dentro no dentro: colcha de retalhos”, de Aguinaldo José Gonçalves. Em nosso próximo encontro conversaremos sobre “O sono preguiçoso das palavras”, também do livro Coisas de Casa. Os contos foram sugeridos pelo próprio autor (Aguinaldo estará aqui em Vilhena este mês para ministrar um minicurso e lançar um livro, mas este é assunto para outro post), e aceitamos o desafio! O melhor é que poderemos conversar com o autor e tirar nossas “dúvidas”, rsrssrrss.

O conto que abre o livro Coisas de Casa apresenta-se suavemente ao leitor, com a história de uma costureira, Dona Matilde, e sua filha, Ismênia. Passeamos sobre as linhas coloridas de sua experiência com os tecidos, porém o que está em jogo aqui é “dentro no dentro”, ou seja, todo o processo de criação que dará origem a obra de arte. Aguinaldo Gonçalves tem estudado há muitos anos estas camadas profundas que suportam a criação, é só citarmos aqui alguns de seus livros, como: Transição e Permanência. Miró/João Cabral: da tela ao texto; Laokoon Revisitado – Relações Homológicas Entre Texto e Imagem; signos (em) cena – ensaios; Museu Movente – o signo da arte em Marcel Proust. Dona Matilde executava um “trabalho”, índice importante que inicia o conto, e sentia “prazer em armar e costurar peças, valendo-se do processo de reutilização de tecidos antigos, retalhos ou fragmentos aproveitáveis de roupas que deixaram de ser usadas”. Com esta abertura, os mais iniciados, já perceberão que não se trata apenas de história, mas que estamos diante da metalinguagem.

Há também alguns ecos com textos críticos de Aguinaldo. Ainda na mesma página que inicia o conto temos: “Cumprindo todo esse ritual emergia Matilde pronta para entrar no espaço oracular”. O olho é um importante aliado do artista e funciona como catalisador e formador, por fragmentos embora, dos quadros construtivos. Ao artista cabe esta consciência e os passos seguintes da “modulação” do construto: “Construir o espaço oracular é estabelecer a singular passagem e iscar o olho mental para as dependências do invisível”, (trecho de Signos em Cena, p. 09).

O processo de criação de Dona Matilde é consciente, ela atua com domínio sobre a matéria que trabalha: “Prefiro espaços considerados ociosos a espaços ocupados com objetos que só servem para preencher espaços”. Cada pequeno recorte é utilizado com inteligência e conhecimento do processo. Outra grande inquietação do conto é a personagem Ismênia. Afinal, quem é Ismênia? Um simulacro? A miragem de muitos semissímbolos postos em reunião, exalando o peso das “guturalidades e oclusivas”, um corpo de tradição, “uma voz muito antiga”? Ismênia permanece com um dos vazios do texto, e o texto, colcha de retalhos, sintoniza a “sintagmatização de enunciados perdidos que conglobam o mundo dos fragmentos”, como diria o próprio Aguinaldo José Gonçalves em Signos em Cena.

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