O lugar onde nascemos define tudo o que somos? Podemos nos rebelar contra o espírito de probabilidade, dos sonhos dos outros, das esperanças daqueles que amamos, das pobrezas, da pequenez que insiste em ficar? Laura, personagem de “A festa no jardim”, (conto de Katherine Mansfield♥ Já lemos outros conto dela, procure na categoria Clube de Leitura), mostra que é possível libertar a consciência. Dia 01 de abril, na cafeteria Laranja Lima, tivemos nosso segundo encontro de 2017 do Clube de Leitura Rosas no Asfalto. O texto lido faz parte do exemplar 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield, organizado por Flora Pinheiro e traduzido por Mônica Maia.

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A fascinante Laura instigou nossa tarde: um tempo cheio de reflexões produtivas e revelações pessoais tocantes. Muito se falou sobre a transformação que ela sofre ao longo da narrativa, um conto dividido por dois momentos: um eufórico e outro disfórico/eufórico. Percebemos a singularidade de Mansfield na camada imagética semissimbólica:

“Jose e Laura estavam lambendo os dedos com aquele ar introspectivo e absorto que só o chantilly pode provocar”

E aqui cabe citar – apenas isso porque o assunto é vasto – o quanto a degustação e a aparência dos alimentos podem se tornar algo extremamente sensual na pena da escritora neozelandesa. Laura vai nos convidando para participar de uma festa oferecida no belo jardim de sua casa. O momento festivo vai denunciando a futilidade e o egoísmo de uma burguesia tola. Somos quase tentados pelos doces e preparativos a embarcar na aparente facilidade, porém tudo se esvai quando Laura descobre que, no fundo e ao fim de sua rua, há um velório: um infeliz rapaz morreu tragicamente. A partir daí, ela vai soltando pequenas camadas e ressurgindo aos olhos do leitor.

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“A vida não é…” o que é a vida? Ela se aloja na beleza fácil das festas, vestidos, dos simulacros que usamos para ofertar uma versão mais bonita de nós? A vida é tudo que é material, o que meu olho enquadra? O que há nos meus bolsos? Laura diz que não. A beleza não está aparente, não é dinheiro, classe social, roupas caras, comidas requintadas, a beleza pode morar do lado mais pobre e esquecido da cidade.  Melhor ainda, a beleza é construção do olhar, isso a arte nos mostra muito bem. A beleza da morte de um desconhecido e a consciência de verticalidades transformam a vida de uma garota potencialmente fútil. Laura encontra no improvável de um lar cinza e simples, (aqui quando vai descendo a rua, toda a paleta de cores é modificada), diante da face da morte, o impacto que a faz renascer. O jardim é o catalizador das finitudes, renascimentos, amadurecimentos da personagem principal. O conto finaliza (ou não) com uma pergunta, um questionamento que não é respondido pelos personagens, materializando um dos vazios do texto (Iser). Laura descobre o que a vida não é, e nesta negação vai ganhando a resposta afirmativa. Potencialmente, a personagem só poderia sugerir esta questão, uma vez que só há vida quando há história pessoal, tempo e lugar íntimos.

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Meus agradecimentos a Roberta Grasso pela organização deste espaço lindo e pelos doces maravilhosos. Meu muito obrigada também a Paulinha Lobato pelas fotos!!

♥ SUGESTÕES QUE ROLARAM POR LÁ:

LIVROS —

Jhumpa Lahiri – O xará

Oswald de Andrade – Memórias Sentimentais de João Miramar

FILMES –

Fragmentado (2017)

Desejo e Reparação (2008)

CD

Chico Buarque – Carioca