Cultivando para o futuro: Sobre o CLUBE DE LEITURA ROSAS NO ASFALTO

PRIMEIRAS MUDAS

Os meus seis anos como professora na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), lecionando disciplinas de Literatura, delineou para mim uma situação não muito aprazível com relação ao volume de leituras dos meus alunos. Alguns chegando muito crus, esboçam, sem orgulho, que não possuem (ou possuíam) o hábito da leitura. É verdade que as exigências do curso de Letras acabam impulsionando, com fórceps ou não, a prática. No caso da ação construída pela força, necessidade, com uma certa violência diga-se de passagem, não sei o que se aproveita: o aluno finaliza o curso e finaliza, também, seu exercício da leitura. Afinal de contas, como demonstrar que ler não é uma tarefa só de professores ou estudantes? Que a leitura rasga, com ponta de faca amolada, aqueles horizontes batidinhos, cansados pelo discurso fácil, muitas vezes opressor mesmo? A força libertadora da literatura ensina a gente que as coisas mais interessantes não estão na superfície, mas, muitas vezes, no osso buco, nos vazios, naquilo que a gente nega!!

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E isso nos leva a outra questão: até que ponto o ensino superior tem saído de suas torres de marfim e expandido as fronteiras? Lembro aqui a Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, em seu artigo 43º, quando afirma que, entre as atribuições do ensino superior, estão: “prestar serviços especializados a comunidade e estabelecer com essa relações de reciprocidade”, afirmando, pois, a necessidade de projetos de extensão que busquem uma relação mais próxima com a sociedade.

ARROUBOS E ADUBOS

O Clube de Leitura nasce/renasce, todos os dias, destas preocupações e necessidades.  O foco está na atração de um público heterogêneo, objetivando levar a “faca amolada” da leitura o mais longe possível.  E assim, nossa iniciativa inclui tanto discentes do Curso de Letras como graduados ou graduandos nos mais diversos cursos universitários e, ainda, estudantes do Ensino Médio. Não é excessivo afirmar que esta configuração do público inscreve-se também nas exigências da Resolução Nº 2, de 1º de julho de 2015 no tocante às questões da formação continuada: “[…]a formação continuada compreende dimensões coletivas, organizacionais e profissionais […] envolve atividades de extensão, grupos de estudos […] e ações para além da formação mínima exigida […]”. O conceito de educação preconizado pela supracitada Resolução compreende essa numa dinâmica relacional: “Por educação entendem-se os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino, pesquisa e extensão, os movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas relações criativas entre natureza e cultura”.

Chamamos atenção, do mesmo modo, para o que versa o Caderno do Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL sobre a necessidade de políticas de leitura para “formar uma sociedade leitora como condição essencial e decisiva para promover a inclusão social de milhões de brasileiros no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável”.

NOVO TERRENO, NOVAS FLORES

O nosso Clube, após setes meses de realização, entra em nova etapa. Agora, incluiremos uma perspectiva de leitura comparada, com a exibição de filmes comentados pela Professora Doutora Walmira Sodré. Feita de modo compartillhado, a leitura comparada da palavra escrita e da linguagem cinematográfica, unida à possibilidade de escolha do material que será trabalhado, a partir de um conjunto previamente apresentado pelas professoras, contribuem para a construção de um leitor / cidadão efetivamente participante. A dinâmica do aprendizado em grupos, permitindo ao membro do Clube o confronto com a pluralidade social e o contato com a plurissignificação dos textos literários, reverbera noções como a de Pound (2007, p. 40) para quem: “a grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

livros 2

Minha mente lembra, da mesma maneira, de Deleuze (1997, p.09): “O problema de escrever: o escritor, como diz Proust, inventa na língua uma nova língua, uma língua de algum modo estrangeira. Ele traz à luz novas potências gramaticais ou sintáticas. Arrasta a língua para fora dos seus sulcos costumeiros, leva-a a delirar” e ainda “Toda obra é uma viagem, um trajeto, mas que só percorre tal ou qual caminho exterior em virtude dos caminhos e trajetórias interiores que a compõem, que constituem sua paisagem ou seu concerto”. (Idem, p.10); ressoando Barthes (2013, p.25): “Censura-se frequentemente o escritor, o intelectual, por não escrever a língua de ‘toda gente’. Mas é bom que os homens, no interior de um mesmo idioma – para nós o francês – tenham várias línguas”.

rosas no asfalto

Nestas várias línguas aparecem o meu, o teu, os nossos de muita gente, de tudo aquilo que somos/fomos, dos que estão perto de nós. De olho no plural, na abundância, percebi que o Clube poderia portar o nome de “Rosas no Asfalto”, uma expressão que, primordialmente, deu nome a minha página do Facebook. A inspiração é drummondiana, mais especificamente do poema “A flor e a náusea”. O que se deseja resgatar aqui é a ideia da beleza que persiste (“É feia. Mas é uma flor/ Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”), da leitura como um fator de transformação social. As rosas, plasticamente diversas do retilíneo do asfalto, impulsionam a desautomatização (Chklóvski) da postura, a busca de refazer alguns dos percursos descontrutores que o artista traçou por meio do seu texto, e tatear a “pele das palavras”, ou melhor, suas “cifras e códigos”. Não conhece ainda o nosso Clube? Venha participar!

“[…]o mel sumoso se escorria como uma mina d’água, pelo chão, no meio das folhas secas e verdes […]” ROSA, Guimarães:

Alguns dos nossos encontros 2106/2017

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Eu e Wal , ali no cantinho, no Encontro sobre “A queda da casa de Usher”

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Encontro sobre “A queda da casa de Usher”

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Encontro sobre “O êxtase”

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Jantar Literário “A estrutura da bolha de sabão”

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Encontro sobre “Crime e castigo”

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2 Comentários

  1. Passos

    Perfeito. Sempre que participo das reuniões lembro-me desta frase: “O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor. ” William Faulkner. Viva a literatura! Parabéns pelo Clube.

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