O mar da gente

Quebra-se a onda, a água espirra, a gente leva um solavanco, mas insiste, afastando-a com a ilharga. O sal, as algas e possíveis caravelas podem nos queimar a pele. Quando o sol do meio dia pulsa, o corpo quer servir-se da densidade daquela água, um caldo cheio de história, mergulhar, sentir o frescor que, depois da pele molhada, vem fazer eco com silfos dos ventos marinhos, docemente salpicados.

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Praia do Cabo Branco- João Pessoa

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João Pessoa

Eu sinto no profundo da alma a saudade da minha terra, o povo fervoroso, a antiguidade, o peso dos seus 431 anos. A memória, poeta das lembranças, em shots cinematográficos, vai espirrando a maçã caramelizada da festa das Neves, o nascer do sol primevo quando o ano muda, o cheiro de história da Igreja de São Francisco, as pedras da cidade antiga, o mar dos dias tristes, calmos, felizes, os espelhos do Jacaré. A gente muda, vai longe, mas há uma essência dura, um miolo que é para sempre. Para muitos, uma coisa inconcebível, já que ser nordestino neste Brasil de tantas hipocrisias, de importâncias desimportantes, de espírito bragantino de superioridade, é nocivo. O sotaque fere, a comida fere, a pele fere, o nosso povo sem ensaios é de verdade, QUEM É DE VERDADE NÃO VEM DE LEVE, PROVOCA, FAZ SENTIR.

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É compreensível que nos tempos de padrões, todo mundo queira (embora não saiba) sumir na multidão, e o diferente do outro acaba se transformando em algo irritante, insuportável, e vai lançando questões, provocando: por quê? Afinal de contas é possível categorizar algo como a beleza? Discussão pavorosa para aqueles que ainda não suportam olhar no espelho. É difícil “ser”. No “ter” a gente vai acumulando, carregando a face, o corpo, os gestos, a fala, para virar um simulacro ambulante. Para quem possui esta consciência, a coisa fica até interessante, ele pode “ser” muitos, vira aquela “metamorfose ambulante”. O duro fica para aqueles que não percebem, respiram a ignorância das coisas, são engolidas pela imagem que criam de si.

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Eu persisto nesta terra distante de onde nasci. Sou nordestina de sotaque e jeito fortes. E fico me perguntando: sairemos da areia escaldante, descalços, e lançaremos nossos corpos nas águas gordas do mar? “Mais uma vez vejo o mar se dar como imagem passagem do árido à miragem”…

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2 Comentários

  1. NILL CRUZ

    Tá lindo essa sua página, Professora!

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