O machado pungente de Raskolnikóv: a primeira reunião de 2017 do CLUBE DE LEITURA RNA

Inauguramos neste sábado, dia 25 de fevereiro de 2017, no Manjericão Comida Saudável, nosso primeiro encontro do Clube de Leitura Rosas no Asfalto. Por sugestão dos nossos membros, iniciamos com recomendações de músicas, filmes, séries ou livros que lemos e gostamos. Gosto muito deste momento porque sinto a importância do conhecimento construído e compartilhado. Todo mundo tem algo a falar, uma coisa que chamou atenção, um “texto” (no sentido geral mesmo) que o enlevou, “o fez melhor”, como os pensadores sabidos da literatura costumam falar. Como seria, então, este “melhor”? Podemos dizer que nos tornamos seres mais interessantes, reflexivos, uns tipos que fazem diferença na sociedade. Essa foi a linha principal da nossa discussão sobre o anti-herói de Dostoiévski: Rodion Romanovitch Raskolnikóv. Claro que um romance de quase 600 páginas tem muito material para ser discutido, porém, o assassino não convicto foi o motor da nossa conversa. A narrativa pausada e extensa, embora seja uma característica de Dostoiévski, é também eco da necessidade de convicção que nutre o Realismo.

crime e castigo 4

Personagens dilacerados pela pobreza caminham por uma Petersburgo abafada, carregada dos tetos dos cubículos que esmagam as almas. É a tísica de Catierina Ivánovna, o vício de Marmieládov, a pedofilia confusa de Svidrigáilov, a prostituição forçada de Sônia. Somos compungidos pela maldade, pela miséria que cerca estes homens e mulheres. Há ainda os que vencem por impor o punho aos outros, e nessa categoria vale a pena citar: Piotr Pietróvitch e a velha usurária, vitimada pelos golpes de machado de Raskolnikóv.IMG_5085

O primeiro surge como noivo de Dúnia, a irmã de Raskolnikóv, e deseja plantar a ideia hipócrita de que veio para “resgatar”, fazendo a “boa ação” de casar-se com uma mulher pobre. A discussão é atual, num tempo em que as mulheres lutam por mais igualdade, e denuncia o invólucro de “bondade” e “abnegação” que esconde uma pulsão de domínio. Pietróvitch deseja apenas uma esposa para ser pisada e, consequentemente, ter seu ego massageado: “sou bom e justo, oh como sou humilde!” (rsrsrsrsrs). Vale a pena lembrar a cena das exéquias de Marmieládov em que ele põe dinheiro nos bolsos de Sônia, acusando-a de roubo na frente de todos.

A velha usurária, por seu turno, é um tipo de algoz, como um micróbio que cresce em meio à podridão (um tipo mais suave de João Romão, de O cortiço). Avarenta ao extremo, vive de explorar a miséria alheia por meio dos objetos que os miseráveis empenham com ela. Cabe ainda lembrar a pobre Lisavieta, hostilizada terrivelmente pela personalidade rude e áspera da velha (aliás, o nome próprio desta personagem é pouco citado no romance, reiterando o processo de descaracterização reiterado pela teoria do jovem assassino). Para Raskolnikóv, alguém deste tipo deve ser eliminado do mundo, o crime torna-se, por excelência, uma ação necessária e auxiliadora. Os grandes “heróis” da história dizimaram milhares, porém o fizeram por um suposto bem maior de um povo, nação ou comunidade. As bases que suportam este pensamento podem abrir uma discussão sobre a pena de morte, por exemplo, afinal de contas: por que o estado deveria manter e sustentar um indivíduo nocivo à sociedade? A discussão é longa e vertical, e tem das suas fugas e agulhadas.

DICAS QUE ROLARAM POR LÁ

— Séries e documentários

– Capacetes brancos

– Westworld

– The Killing

– The OA

– Ele está de volta

— Livros

– Luna Clara & Apolo Onze

– Primeiras estórias (Guimarães Rosa)

– Noites do Sertão (Idem)

— CD

– Cauby canta Baden

IMG_5101

Os lindos!!!

IMG_5089

Pizzas saudáveis: receita novinha da Marilza!!!

Anteriores

Sobre Crime e Castigo, de Dostoiévski

Próximo

O mar da gente

4 Comentários

  1. Kenny

    Adoro nossas reuniões.

  2. Milena

    Droga, pisquei kkk aodrei o texto! ;*

Deixe uma resposta

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén