A primeira vez que li Crime e Castigo, eu tinha 19 anos. Mesmo com a maturidade intelectual ainda aflorando, confesso que, naquela época, a narrativa já me deixou em estado de encantamento. Agora, sob um clima agradável e ameno de final de tarde, aos 32 anos, concluo uma releitura. O impacto é outro, as reflexões são novas, mas a mente vai buscar, ao longo da memória das sensações, aquele encantamento. Pronto, eu senti de novo, termino o livro, fecho cuidadosamente, e fico em estado de meditação.crime e castigo 1

As elucubrações da mente de Raskolnikóv, o criminoso não comum, também são diversas, temos dificuldade em acompanhar o curso violento e profundo e, por vezes, vamos ficando doentes também. Ele não se vê como assassino, e insere uma discussão curiosa sobre alguns dos ídolos ovacionados pela História: uns assassinos declarados que admiramos e estudamos nas escolas. A narrativa leva-nos pelos esgotos da cidade – falo aqui das partes ignoradas – o suprassumo do sofrimento alheio. Os personagens dilacerados pelo descaso, pobreza, doenças e vícios são os protagonistas dos seus crimes e sofrem, alguns mudos outro nem tanto, a punição.

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O quanto de bondade e tolerância pelo outro sustentamos, cultivamos? Não é porque assumimos um lado que somos melhores! No lado da “vítima”, só visualizamos um corpo e uma arma. Do lado do “algoz”, apenas a incongruência da sociedade em que vivemos, uma coisa que, por si só, não justifica o ato criminoso. A alma de Raskolnikóv permanece inabitada, e vai se torturando por não conseguir alcançar a sua própria consciência. Afinal de contas, a velha usurária era apenas “um piolho nocivo e nojento”? E Lisavieta? Deu o azar de aparecer na hora errada? Qual espaço que nos separa das nossas vontades, idealizadas em cama quente, e a execução dessas, já integradas aos fatores diversos da realidade?

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Quando não há mais qualquer esperança e já se delineia, aos olhos do leitor, alguma imagem, mesmo que desfocada, de Raskolnikóv, o narrador destrói tudo com a pungência do amor: o miserável encontra na pobre prostituta Sônia a corda para o fôlego novo. As tardes assim tão ricas vão me lembrando da força da literatura, e vou seguindo suave me transformando no outro.