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Se tem uma coisa que é complicada para um professor de Literatura é mostrar a pluralidade da linguagem no texto criativo. Os grandes ensinam que o texto tem abertura, se carrega de significado na grande literatura, tem sabor, e se constrói a partir de um sistema de relações, marcando a singularidade do verbo poético.

É difícil explicar que, nos textos literários, há muitas camadas de significados, e que a dinâmica do paradigma projetado sobre o sintagma fere o movimento comum da língua cotidiana. Embora os teóricos tenham sido certeiros, isso não diminui nossa dificuldade. Como explicar para alguém que não tem costume de ler, que a postura diante de um texto literário é diversa daquela que assumimos quando lemos um texto não literário? Na leitura do livro recentemente lançado pelo Professor Doutor Aguinaldo José Gonçalves, Coisas de Casa, o primeiro conto, “O dentro no dentro: colcha de retalhos”, despertou-me algumas inquietações neste sentido. A atividade da costura, o zelo na escolha das linhas, tecidos e afins, e o processo de coser com agulha aguda falam muito do exercício de fazer literatura. Na minha prática docente, tenho percebido como a relação de conceitos difíceis com coisas cotidianas, entendendo procedimentos e encontrando os elementos análogos, tem um resultado positivo na aprendizagem. Desembrulhar, diria Deleuze “desdobrar”, as várias camadas do texto,  para melhor ensinar a plurissignificação.  O conto em questão pode servir de excelente opção para ensinar o processo de construção da linguagem criativa. Separei aqui alguns trechos:

“Dava gosto de ver Dona Matilde debruçada sobre a cama ajeitando os primeiros passos para a realização de mais um trabalho. Ela sempre demonstrava prazer em armar e costurar as peças, valendo-se do processo de reutilização de tecidos antigos, retalhos ou de fragmentos aproveitáveis de roupas que deixaram de ser usadas.”

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“Mais uma vez Dona Matilde desmanchou os pontos compostos insatisfeita com algo que não conseguia entender mas que a atormentava muito. A sensação que tinha era de esmorecimento sem explicação. Olhava para colcha e as cores se tornavam pálidas aos seus olhos e o que se percebia era a exigência de um esforço mais que humano para revitalizar o exercício de invenção”.

Coisas de Casa é um livro de contos que sabe falar ao leitor das “coisas” do texto, das multiplicidades, da linguagem folhada da literatura, numa escrita suave, de água que corre para ser bebida aos goles, lentamente.

Beijos literários!