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Muita gente conhece o Poe de “O corvo”, aquela ave tenebrosa que repete “nevermore”, e que consagrou o escritor norte-americano como mestre da narrativa macabra. Mais do que macabra, Poe é autor da tensão, apertando palavra contra palavra, som contra som, ritmo contra ritmo, cor contra cor.

Ele tinha consciência da “teatralidade” da escrita literária, e mostrava sua técnica no seu verbo poético. Mais do que conhecer “O corvo”, é preciso ler “A filosofia da composição”, texto no qual é possível conhecer os fundamentos da poesia de Poe, ou seja, o modus operandi que atuou na construção de seu poema mais célebre, além de refletir sobre as estruturas que permeiam os textos poéticos em geral. Poe é mais do que um autor da narrativa de terror, o feio, o medo, a angústia, o susto são frutos da sua capacidade de artesão da palavra, sua consciência da importância primordial da materialidade poética. Seguimos a leitura de Poe como alguém que tateia paredes quando está tudo escuro. Adoramos os gatos, os corpos esverdeados pela decomposição e emparedados, em suma, os gritos fantasmagóricos de uma escrita pulsante.

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Sem dúvida, porém, contribui sobremaneira para sua grandiosidade sua noção plástica da escrita. Não, eu não estou confundindo as coisas, é possível apreciar e perceber procedimentos pictóricos na palavra. Isso é antigo, vem de Horácio com seu “ut pictura poiesis” (mais ou menos “como a pintura, é a poesia”). Um conto no qual podemos encontrar isso é “Poço e pêndulo”. O próprio título já remete à visualidade de formas geométricas: “Ele transmitia à alma a ideia de rotação – talvez por associar-se em minha imaginação ao rumor de uma roda de moinho”. Para identificar este tipo de linguagem, de maneira primordial, é importante perceber a ênfase na cor, e o modo como a luz é distribuída na narrativa: “Então meu olhar recaiu sobre as sete velas altas em cima da mesa […] pareciam esguios anjos brancos que me salvariam […]”; “o negror das trevas sobreveio […] Então o universo se tornou silêncio, imobilidade e noite” […]; “Muito subitamente regressaram-me à alma movimento e som”. A perspectiva do olhar do narrador vai singularizando o ambiente, e tornando-o assustador por meio do reforço da linguagem pictórica. O personagem, trancafiado numa espécie de calabouço, vai padecendo do desespero construído aos poucos. A linha inicial está no completo escuro que cobre a narrativa, enquanto tateamos o espaço junto com o narrador.

Após isso, numa escala vagarosa, o escuro vai sendo desconstruído por um “claro” – que no conto é fruto das pequenas descobertas com relação aos detalhes do ambiente – é uma espécie de “jogo” que se assemelha ao que ocorre nas pinturas barrocas, quando algo é mostrado e algo é obliterado do quadro. É em meio a estas descobertas que o narrador percebe pinturas como no teto da prisão: “Era uma figura pintada do Tempo como é normalmente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava o que, a uma olhar casual, supus ser a imagem pintada de um imenso pêndulo, tal como se veem em relógios antigos”. Arrodeados pelo poço misterioso, vemos a narrativa ser moldada por um pêndulo que corta as superficialidades e instaura a poesia de tensão.