Ler Tolstói é sentir as pequenas rosas que dão ao plano um toque de obliquidade, transformando os assuntos mais batidos em coisas singulares, interessantes e grandiosas.

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Foto: reprodução Pinterest

O livro desta semana é “Felicidade Conjugal”. Sempre me admirei com a capacidade de Dostóievski entrar na mente dos personagens e verbalizar os seus mais duros e escusos pensamentos, aquilo que a gente joga para os lados esquecidos , mas Tolstói tem a capacidade de desautomatizar aquilo que é cotidiano, que não teria graça nenhuma se não fosse contado pela pena de um excelente escritor.

      O que é o amor senão um dos sentimentos mais impulsionadores da arte? O algoz daqueles que pensam que sabem escrever e derramam banalidades cansadas nas prateleiras das livrarias (por certo porque lhes falta tomar conselhos com Rilke em “Cartas a um jovem poeta”). Vemos o amor em Mária, descendo de seus pensamentos para o corpo do mundo, com um facho de luz lançada sobre as coisas, nos fazendo ver e não apenas perceber tudo. O outro é o depósito deste sentimento e vai embelezando-se diante do leitor. Aqui, o inferno não são os outros, o outro é aquilo que vai se tornando arte: a tarde, o homem, os lábios, as plantas, as nuvens, tudo vira signo. Mária Aleksandrovna é a narradora principal, o amor dela por Sierguiéi Mikháilitch vai construindo a escrita e mostrando que também esta passa por metamorfoses do tempo.

     É possível sentir junto com ela a vida derramada por seu sentimento, a decepção, o ciúme, a raiva, a amizade, e o amor calmo do fim da novela. O amor vai sendo maturado aos poucos, às vezes pensa-se que ele foi embora, para depois anunciar a volta, e ele vir vestido de nova roupa. O amor de Mária e Sierguiéi é o amor de todo mundo que insiste, aceita os fracassos, aceita que o tempo não volta, aproveita o que foi perdido, transformando-o no novo. Tolstói é o condutor de tudo, um tipo de bruxo que vai convidando-nos, por encantamento de escrita, a adentrar no caldeirão das coisas verdadeiras.