Conheci o Nobel de Literatura, “Vozes de Tchernóbil”, comprei e fui lendo, aos poucos, sorvendo as palavras, me deixando impactar pela pletora de sentimentos.

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Fiquei pensando na morte redimensionada, realocada num contexto de um desastre nuclear. Da contaminação como um espírito que tomou conta de tudo, assombrando os corpos, os alimentos, os animais.

Confesso que senti um seco na garganta por viver alheia a esta história, tive um espécie de sufocamento ao saber dos gatos e cachorros cruelmente abatidos e lançados numa vala profunda, alguns enterrados vivos. Terra. Terra. Terra comendo tudo, imergindo vidas inteiras. Pensei no como nos envolvemos, me vi meio soviética nestes dias. O mundo desconstruído da arte sempre nos puxando para dentro, querendo soprar nas nossas bocas um ar novo, tirar-nos do afogo cotidiano. Subitamente, pensei em “Nos sofrimentos do jovem Werther”,  porque no momento ministro Literatura Brasileira II, radiação direta na alma dos stürmer und dränger, fotografia da alma em busca, que se sabia malograda, do Infinito. A radiação da escrita é a certeza de que vivemos muitas vidas, e de que morremos um pouco para ser uns outros, às vezes.