Os caminhos da leitura e os passos das palavras são inesgotáveis. A leitura abre os nossos horizontes e vai nos ofertando uma visão mais verticalizada das coisas. Ler não só com letras, ler situações, fragmentos de canções, pessoas, situações, em suma, o mundo. Freire fala que a “leitura do mundo precede a leitura das palavras”.

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É neste espírito que percorremos os espaços em “As cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino. As cidades são inesgotáveis, cheias de detalhes, fragmentadas em sua essência. Cada pequeno traço pode ser tudo, uma pessoa, uma situação, um sentimento. Há algumas que são o retrato de uma sensação que tivemos ou que temos, algo que vai nos trazendo a identificação com o
fragmento de nós. Os capítulos são independentes, podem ser lidos sem muita sequência. Uma escrita fragmentada, um nó de signos que só poderia ser organizado como partes de um todo, sendo que o todo também é parte (a lógica de Gregório de Matos). Um livro para ser sincronicamente sentido, sorvido como os aromas de uma boa comida:

“A água do lago estava encrespada; o reflexo dos ramos do antigo palácio real dos Sung fragmentava-se em reverberações cintilantes como folhas que flutuam.
— As margens da memória, uma vez fixadas com palavras, cancelam-se — disse Polo,—Pode ser que eu tenha medo de repentinamente perder Veneza, se falar a respeito dela. Ou pode ser que, falando de outras cidades, já a tenha perdido pouco a pouco”. (P. 82).

“Casa habitante de Eudóxia compara a ordem imóvel do tapete a uma imagem sua da cidade, uma angústia sua, e todos podem encontrar, escondidas entre os arabescos uma resposta, a história de suas vidas, as vicissitudes do destino”. (P. 92).